O dia em que percebi que estava vivendo longe de mim mesma

Minha Jornada

O dia em que percebi que estava vivendo longe de mim mesma não aconteceu durante uma grande crise, nem após uma decisão importante. A verdade é que esse despertar começou com uma pergunta simples feita pela minha filha. 

Ela olhou para mim e perguntou: 

— Mãe, por que você só usa roupa preta? 

A pergunta me pegou desprevenida. 

Eu não soube responder. 

Naquele momento, percebi algo que vinha acontecendo há anos sem que eu notasse. Não era apenas a cor das roupas. Aos poucos, eu havia deixado de lado partes importantes de quem eu era. 

E o mais assustador: eu nem tinha percebido. 

Como uma mulher se afasta de si mesma sem perceber 

Durante muito tempo, acreditei que estava fazendo o que precisava ser feito. 

Eu era a mulher responsável, a que resolvia problemas, a que evitava conflitos, a que estava sempre disponível para ajudar. 

Hoje sei nomear o que era: eu era a mulher que vive para agradar, mesmo sem perceber o preço que isso cobrava. 

Desde muito nova aprendi que não deveria incomodar ninguém. Então me tornei especialista em me virar sozinha, engolir sentimentos e dizer sim quando, na verdade, queria dizer não. 

O problema é que cada vez que deixamos nossas necessidades para depois, nos afastamos um pouco mais de nós mesmas. 

E esse afastamento não acontece de uma vez. 

Ele acontece devagar. 

Tão devagar que quase não percebemos. 

Os sinais de que eu estava vivendo longe de mim mesma 

Hoje consigo enxergar vários sinais que ignorei por anos. Eles não chegaram de uma vez — foram se acumulando em silêncio, até se tornarem a única forma que eu conhecia de viver. 

🖤 Anestesia emocional — eu não estava exatamente triste, estava anestesiada. Não sentia alegria verdadeira, entusiasmo ou prazer. Apenas cumpria tarefas, resolvia problemas e seguia em frente. 

🍽️ Comida como refúgio — ela se tornou minha forma de acolhimento, preenchendo espaços que eu nem sabia nomear. 

🪞 Distância do próprio corpo — cheguei a pesar 82 quilos e parei de me olhar no espelho. Meu corpo carregava o peso de emoções que eu não conseguia expressar. 

👗 Roupas que escondiam, não vestiam — precisavam ser só confortáveis. As cores desapareceram. 

E junto com elas, minha autoestima feminina foi se esvaziando, sem barulho, sem aviso. 

E sem perceber, eu também fui desaparecendo. 

Perdi minha espontaneidade. 

Perdi meus sonhos. 

Perdi minha feminilidade. 

Perdi a curiosidade pela vida. 

Mas não senti falta dessas coisas, porque elas foram embora uma de cada vez. 

O que as roupas pretas estavam tentando me mostrar 

Depois da pergunta da minha filha, comecei a prestar atenção em mim mesma. 

Pela primeira vez em muito tempo, parei para observar a mulher que existia por trás das funções que eu exercia. 

Eu era mãe. 

Era esposa. 

Era profissional. 

Era filha. 

Era responsável por tantas coisas. 

Mas quem era eu? 

A resposta não veio de imediato. 

O que veio foi um desconforto crescente. 

Percebi que as roupas pretas não eram apenas uma preferência. 

Elas representavam uma fase em que eu estava me escondendo. 

Não queria chamar atenção. 

Não queria ser vista. 

Não queria ocupar espaço. 

Era como se eu tivesse desaparecido dentro da minha própria vida. 

O momento em que comecei a aprender como voltar para si mesma 

A mudança não aconteceu de uma vez. 

Ela começou com pequenos movimentos. 

Passei a cuidar mais de mim. 

Voltei a me exercitar com regularidade. 

Comecei a prestar atenção aos meus desejos e necessidades. 

Descobri prazeres que nunca havia me permitido experimentar. 

Aprendi a desfrutar da minha própria companhia. 

Pela primeira vez, comecei a construir uma relação comigo mesma que não dependia da aprovação de ninguém. 

Foi o início de um processo simples, mas profundo: redescobrir a si mesma, aos poucos, sem pressa. 

Foi um processo lento. 

E, em muitos momentos, desconfortável. 

Porque voltar para si mesma exige coragem. 

Significa enxergar aquilo que durante anos escolhemos não ver. 

O que não aceito mais na minha vida 

Ao longo dessa jornada de autoconhecimento, percebi que algumas mudanças precisavam ser definitivas. 

Hoje não aceito mais me colocar em segundo plano. 

Não aceito ser procurada apenas quando é conveniente. 

Não aceito assumir responsabilidades que pertencem a outras pessoas. 

Não aceito engolir sentimentos para evitar o desconforto alheio. 

E principalmente, não aceito me abandonar para manter relacionamentos ou atender expectativas. 

Aprender a dizer não foi uma das formas mais profundas de amor-próprio que descobri. 

Curiosamente, quanto mais aprendi a dizer não, mais valor passaram a ter os meus sims. 

Viver perto de si mesma é uma escolha diária 

Ainda existem feridas. 

Ainda existem desafios. 

Ainda existem dias difíceis. 

Mas existe uma diferença fundamental entre a mulher que eu era e a mulher que sou hoje. 

Antes, eu vivia no piloto automático. 

Hoje, vivo com consciência. 

Antes, eu me definia pelos papéis que desempenhava. 

Hoje, procuro me lembrar diariamente de quem sou além deles. 

Entendo hoje que isso é apenas mais uma etapa do meu desenvolvimento pessoal feminino — um caminho sem ponto de chegada, só de continuidade. 

O autoconhecimento feminino não resolveu todos os meus problemas. 

Mas me devolveu algo que eu havia perdido pelo caminho: a mim mesma. 

Se você sente que também está se afastando da mulher que deseja ser, talvez este seja um bom momento para fazer uma pausa e se perguntar: 

Quem estou me tornando? 

E quais partes de mim ficaram esquecidas pelo caminho? 

Para aprofundar essa reflexão, você também pode ler nosso artigo sobre autoconhecimento feminino e reconexão consigo mesma.

Se essas perguntas tocaram alguma parte sua, preparei um guia gratuito pra te acompanhar nesse caminho de volta pra você: Reconexão Corpo-Raiz na Menopausa.

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Esse caminho de reencontro não é só meu. Um material recente produzido por estudantes de Psicologia da PUC-SP, dentro do Portal do Envelhecimento, mostra como o cuidado constante com os outros pode apagar a identidade feminina ao longo da vida — e como o caminho de volta a si mesma começa, antes de tudo, com um convite. Vale a leitura: Mulheres: do cuidado ao autoconhecimento 

Porque, às vezes, a transformação não começa com uma grande mudança. 

Às vezes, ela começa com uma pergunta simples. 

Assim como aconteceu comigo. 

— Mãe, por que você só usa roupa preta? 

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